sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Canto XXXIV













Desta vez falo com os óculos postos

como as pessoas que falam a verdade.

Acredita. As saias os cabelos já não têm

um ar condicionado agora estou às escuras

aprendi a ir pela sombra quando vou com o teu nome.

.

Ai flor ai flor do sol a pino, quando vim para Julho

para a frente do mar vim com o teu nome vestido todo

abotoado às costas. Vim no teu cachecol de quilómetros.

E degolei a ventoinha. Mandei arrancar o limoeiro que havia

na ponta da língua. Mandei arrancar uma a uma

as unhas de gelo.

.

Acredita. Gosto mais de murchar à beira do teu copo.

Gosto de abrir o decote e mostrar o escaldão


Fotos Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida


Canto XXXIII













A Casa do Mundo
.
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
.
Luzindo cheguei à porta
interrompo os objectos de família, atiro-lhes a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida

Foto Hugo Joel / Texto Luísa Neto Jorge

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Canto XXXII















Esta manhã que nasceu tão roxa
fica bem com as azáleas do quintal da vizinha.
Fica bem com o meu vestido que é roxo
e fica bem com os teus sapatos –
que não são roxos são beges
mas ficam bem com o gato do quintal da vizinha.
.
É pena que não tenhas trazido as tuas melhores mãos.
Esta manhã vinha pedir-te que tirasses os atacadores
porque destoam.
.
E que ficasses sem atacadores sem mágoas sem sono
completamente bege.
E que amachucasses a pele roxa
do meu vestido.

.

Foto Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Canto XXXI - La RENTRÉE s'il vous plaît...



















Cântico da Puberdade


Havia tanto tempo que a criança se picara no fuso

mas girava ainda nas caves do seu corpo primeiro

abotoada às rochas

do outro lado da tarde.

.

Agora os sinos são maiores do que a capela.

As mãos já não são lugar onde o mar se amplie

onde o mar venha ladrar a quem passa.

Findam verões de pianos de cauda de gatos abandonados

à erosão daqueles dedinhos minerais.

As claves de sol entraram pela cozinha

misturaram-se com a carne das aves

bronzearam os músculos do pomar.


Fotos Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Canto XXX



















Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.

Foto Hugo Joel / Texto António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Canto XXIX













Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira instância do momento
de eu surgir e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto
beijava os teus olhos por dentro.
Beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas as noites
em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

Foto: Hugo Joel / Texto Ana Hatherly

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Canto XXVIII



















Beneath my hands

Beneath my hands
your small breasts
are the upturned bellies
of breathing fallen sparrows.

Wherever you move
I hear the sounds of closing wings
of falling wings.

I am speechless
because you have fallen beside me
because your eyelashes
are the spines of tiny fragile animals.

I dread the time
when your mouth
begins to call me hunter.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want to summon
the eyes and hidden mouths
of stone and light and water
to testify against you.

I want them
to surrender before you
the trembling rhyme of your face
from their deep caskets.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want my body and my hands
to be pools
for your looking and laughing.

Foto Hugo Joel / Texto Leonard Cohen