terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Canto XXXV














VENTO TOLO

Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjam colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.
Foto Hugo Joel / Texto Daniel Jonas, in «Os Fantasmas Inquilinos»

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Canto XXXV















Porque no Impossível é que está a realidade. Lóri suportava a luta porque Ulisses, na luta com ela, não era seu adversário: lutava por ela.
- Lóri, a dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.
Ela apertou as mandíbulas, olhou para a lua gelada, olhou o zénite da esfera celeste.
Ele esmagava uma folha que caíra da árvore sobre a mesa do bar. E como para lhe dar de presente alguma coisa, ele disse:
- Sabe o que é sarcofila?
- Nunca ouvi esta palavra, respondeu.
- Sarcofila é a parte carnosa das plantas. Segure esta e sinta.
Estendeu a folha, Lóri tacteou-a com dedos sensíveis e esmagou-lhe a sarcofila. Sorriu. Era lindo dizer e pegar em: sarcofila.

Foto Hugo Joel / Texto Clarice Lispector, in «Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres»

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Canto XXXIV













Desta vez falo com os óculos postos

como as pessoas que falam a verdade.

Acredita. As saias os cabelos já não têm

um ar condicionado agora estou às escuras

aprendi a ir pela sombra quando vou com o teu nome.

.

Ai flor ai flor do sol a pino, quando vim para Julho

para a frente do mar vim com o teu nome vestido todo

abotoado às costas. Vim no teu cachecol de quilómetros.

E degolei a ventoinha. Mandei arrancar o limoeiro que havia

na ponta da língua. Mandei arrancar uma a uma

as unhas de gelo.

.

Acredita. Gosto mais de murchar à beira do teu copo.

Gosto de abrir o decote e mostrar o escaldão


Fotos Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida


Canto XXXIII













A Casa do Mundo
.
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
.
Luzindo cheguei à porta
interrompo os objectos de família, atiro-lhes a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida

Foto Hugo Joel / Texto Luísa Neto Jorge

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Canto XXXII















Esta manhã que nasceu tão roxa
fica bem com as azáleas do quintal da vizinha.
Fica bem com o meu vestido que é roxo
e fica bem com os teus sapatos –
que não são roxos são beges
mas ficam bem com o gato do quintal da vizinha.
.
É pena que não tenhas trazido as tuas melhores mãos.
Esta manhã vinha pedir-te que tirasses os atacadores
porque destoam.
.
E que ficasses sem atacadores sem mágoas sem sono
completamente bege.
E que amachucasses a pele roxa
do meu vestido.

.

Foto Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Canto XXXI - La RENTRÉE s'il vous plaît...



















Cântico da Puberdade


Havia tanto tempo que a criança se picara no fuso

mas girava ainda nas caves do seu corpo primeiro

abotoada às rochas

do outro lado da tarde.

.

Agora os sinos são maiores do que a capela.

As mãos já não são lugar onde o mar se amplie

onde o mar venha ladrar a quem passa.

Findam verões de pianos de cauda de gatos abandonados

à erosão daqueles dedinhos minerais.

As claves de sol entraram pela cozinha

misturaram-se com a carne das aves

bronzearam os músculos do pomar.


Fotos Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Canto XXX



















Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.

Foto Hugo Joel / Texto António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Canto XXIX













Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira instância do momento
de eu surgir e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto
beijava os teus olhos por dentro.
Beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas as noites
em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

Foto: Hugo Joel / Texto Ana Hatherly

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Canto XXVIII



















Beneath my hands

Beneath my hands
your small breasts
are the upturned bellies
of breathing fallen sparrows.

Wherever you move
I hear the sounds of closing wings
of falling wings.

I am speechless
because you have fallen beside me
because your eyelashes
are the spines of tiny fragile animals.

I dread the time
when your mouth
begins to call me hunter.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want to summon
the eyes and hidden mouths
of stone and light and water
to testify against you.

I want them
to surrender before you
the trembling rhyme of your face
from their deep caskets.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want my body and my hands
to be pools
for your looking and laughing.

Foto Hugo Joel / Texto Leonard Cohen

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Canto XXVII



















El Mar, El Mar y Tú…

El mar, el mar y tú, plural espejo,
el mar de torso perezoso y lento
nadando por el mar, del mar sediento:
el mar que muere y nace en un reflejo.

El mar y tú, su mar, el mar espejo:
roca que escala el mar con paso lento,
pilar de sal que abate el mar sediento,
sed y vaivén y apenas un reflejo.

De la suma de instantes en que creces,
del círculo de imágenes del año,
retengo un mes de espumas y de peces,

y bajo cielos líquidos de estaño
tu cuerpo que en la luz abre bahías
al oscuro oleaje de los días.

Foto Hugo Joel / Texto Octavio Paz

Canto XXVI
















(a carta da paixão)

.

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.















Fotos Hugo Joel / Texto de Herberto Helder, in «PHOTOMATON & VOX»

domingo, 24 de maio de 2009

Canto XXV



















Diálogo entre Camões e Natércia


Se soubesses do fio,

dessa vaga memória dos teus olhos,

a que me faz pedir-te

assim, agora:


— Chega, sem me chegares,

vem, sem partires,

meu brando amor

que, ao desejar,

sonhara

E não fales de mim:

fala comigo

.

— Eu falarei

com mais suave voz

de ti, amada,

porque tanto amada

E se além de mil almas

eu tivera,

teceria por ti

perfeitas rimas

.

E trar-te-ei notícias

e conforto,

sobre fios mais brilhantes

do que prata

.

— Meu brando amor,

fala comigo antes,

não deixes que os meus olhos

assim fiquem,

vagos, ainda antigos,

sem saudades

.

Seduz-me novamente,

traz-me versos

em que queira sentir

que em ti navego

.

— Eu morrerei sem ti

Contigo vivo,

embora sem te ter,

mesmo que tendo,

minha amiga e amada,

como rio

que à foz de novo

corre à foz de novo

.

— Mesmo que não te tendo,

tenho ainda,

mesmo partindo,

tu me chegas sempre,

como num rio

que vem à foz de novo

Corre, brando e sereno,

amor, amado,

que eu saberei saber

quando me queres

.

— Corre por mim,

e chega onde chegares

.

— Se soubesses do fio

.

— Se soubesses de dentro do amor

.

— Essa vaga memória dos teus olhos

.

— Seria só olhar.

E chegaria



















Fotos Hugo Joel / Texto Ana Luísa Amaral

terça-feira, 12 de maio de 2009

Canto XXIV















INSOMNIO

De fierro,
de encorvados tirantes de enorme fierro tiene que ser la noche,
para que no la revienten y la desfonden
las muchas cosas que mis abarrotados ojos han visto,
las duras cosas que insoportablemente la pueblan.

Mi cuerpo ha fatigado los niveles, las temperaturas, las luces:
en vagones de largo ferrocarril,
en un banquete de hombres que se aborrecen,
en el filo mellado de los suburbios
en una quinta calurosa de estatuas húmedas,
en la noche repleta donde abundan el caballo y el hombre.

El universo de esta noche tiene la vastedad
del olvido y la presición de la fiebre.

En vano quiero distraerme de mi cuerpo
y del desvelo de un espejo incesante
que lo prodiga y que lo acecha
y de la casa que repite sus patios
y del mundo que sigue hasta un despedazado arrabal
de callejones donde el viento se cansa y de barro torpe.

En vano espero
las desintegraciones y los símbolos que preceden el sueño.

Sigue la historia universal:
los rumbos minuciosos de la muerte en las caries dentales,
la circulación de mi sangre y de los planetas.

(He odiado el agua crapulosa de un charco,
he aborrecido en el atardecer el canto de un pájaro.)

Las fatigadas leguas incesantes del suburbio del Sur,
leguas de pampa basurera y obscena , leguas de execración.
no se quieren ir del recuerdo.

Lotes anegadizos, ranchos en montón como perros charcos de plata fétida:
soy el aborrecible centinela de esas colocaciones inmóviles.
Alambre, terraplenes, papeles muertos, sobras de Buenos Aires.

Creo esta noche en la terrible inmortalidad:
ningún hombre ha muerto en el tiempo, ninguna mujer, ningún muerto
porque esta inevitable realidad de fierro y de barro
tiene que atravesar la indiferencia de cuantos estén dormidos o muertos
aunque se oculten en la corrupción o en los siglos
y condenarlos a vigilia espantosa.

Toscas nibes color borra de vino infamarán el cielo;
amanecerá en mis párpados apretados.















Fotos Hugo Joel / Texto Jorge Luis Borges

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Canto XXIII



















Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.
-
Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.
-
Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.
-
Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te um cobertor em vez de um abraço.


Fotos Hugo Joel / Texto Maria do Rosário Pedreira, in «A Casa e o Cheiro dos Livros»


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Canto XXII



















Avassalador

o amor?

Avassalador

é o céu direito depois da despedida

a compostura do céu

e o vento abrindo-se.

A dilatação das asas

e o rigor das plumas no rigor da tarde

o rebentar dessa escuridão

entre a minha pele e os teus longos astros.

Avassalador

é o fruto que ficou na boca

inimastigável.

A substituição daqueles dedos de uva

por estes dedos de ave

sem grainhas

humanos demais.

Avassalador

é o cadáver vegetal

o arvoredo

a pender dos seios.

Avassalador sim

avassalador como a neve desatando-se

como gomos enrijecidos desenfreados

brancos de doer

brancos de estar

à sombra de nós.


Foto Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Canto XXI


















Horizontal, sí, te quiero.
Mírale la cara al cielo,
de cara. Déjate ya
de fingir un equilibrio
donde lloramos tú y yo.
Ríndete
a la gran verdad final,
a lo que has de ser conmigo,
tendida ya, paralela,
en la muerte o en el beso.
Horizontal es la noche
en el mar, gran masa trémula
sobre la tierra acostada,
vencida sobre la playa.
El estar de pie, mentira:
sólo correr o tenderse.
Y lo que tú y yo queremos
y el día —ya tan cansado
de estar con su luz, derecho—
es que nos llegue, viviendo
y con temblor de morir,
en lo más alto del beso,
ese quedarse rendidos
por el amor más ingrávido,
al peso de ser de tierra,
materia, carne de vida.
En la noche y la trasnoche,
y el amor y el trasamor,
ya cambiados
en horizontes finales,
tú y yo, de nosotros mismos.

Foto Hugo Joel / Texto Pedro Salinas, in «La Voz A Ti Debida»

domingo, 5 de abril de 2009

Para o menino Bardo, uma salva de palmas...


Segue o teu destino,

rega as tuas plantas,

ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

de árvores alheias.

Ricardo Reis [excerto]






sexta-feira, 3 de abril de 2009

Canto XX



















UMA CERTA LISBOA INSUPERÁVEL

Só lhe faltava dizer que Lisboa era airosa no seu serpentear e uma cidade inquietante na qual uma pessoa nunca sabia se acabava de chegar ao fim de uma viagem ou ao ponto de partida. Só lhe faltava dizer que Lisboa era uma cidade que às vezes parecia surgir como uma serpente surge da sua pele. Mas isto será melhor que eu diga a mim próprio, pois às vezes tenho a impressão que surjo do que escrevi como uma serpente surge da sua pele, aqui nesta ilha de palmeiras e eternidade onde todos os dias mergulho na tinta a minha pena e onde o tempo, no seu teatro armado sobre a calma e o pouco vento, também passa por mim lento e fácil, porque a vida aqui é fácil, e o meu relógio muito lento e, além disso, para quê negá-lo, eu sou apenas um principiante, o principiante mais lento.

Fotos de Hugo Joel / Texto de Enrique Vila-Matas, in «A Viagem Vertical» (trad. José Agostinho Baptista)





































sexta-feira, 27 de março de 2009

Canto XIX



















Hai un sangue, un respiro.

Sei fatta di carne

di capelli di sguardi

anche tu. Terra e piante,

cielo di marzo, luce,

vibrano e ti somigliano

il tuo riso e il tuo passo

come acque che sussultano

la tua ruga fra gli occhi

come nubi raccolte

il tuo tenero corpo

una zolla nel sole.

.

Hai un sangue, un respiro.

Vivi su questa terra.

Ne conosci i sapori

le stagioni i risvegli,

hai giocato nel sole,

hai parlato con noi.

Acqua chiara, virgulto

primaverile, terra,

germogliante silenzio,

tu hai giocato bambina

sotto un cielo diverso,

ne hai negli occhi il silenzio,

una nube, che sgorga

come polla dal fondo.

Ora ridi e sussulti

sopra questo silenzio.

.

Dolce frutto che vivi

sotto il cielo chiaro,

che respiri e vivi

questa nostra stagione,

nel tuo chiuso silenzio

è la tua forza. Come

erba viva nell’aria

rabbrividisci e ridi,

ma tu, tu sei terra.

Sei radice feroce.

Sei la terra che aspetta.

_

Tens um sangue, um sopro.

Feita de carne

de cabelos de olhares

também tu. Terra e plantas,

céu de Março, luz

vibram e assemelham-te –

o teu riso e o teu passo

como águas em sobressalto –

a tua ruga entre os olhos

como nuvens encolhidas –

o teu corpo brando

um torrão ao sol.

.

Tens um sangue, um sopro.

Habitas esta terra.

Conheces-lhe os sabores

as estações os despertares,

brincaste ao sol,

falaste connosco.

Água clara, rebento

primaveril, terra,

silêncio germinante,

tu brincaste menina

debaixo de um céu diferente,

tens nos olhos o silêncio

uma nuvem que jorra

como fonte do fundo.

Ora ris ora estremeces

neste silêncio.

.

Doce fruto que vives

debaixo do céu claro,

que respiras e vives

esta nossa estação,

a tua força reside

no teu silêncio fechado.

Como erva viva no ar

arrepias-te e ris,

mas tu, tu és terra.

És raiz feroz.

És a terra que espera.


Foto Hugo Joel / Texto Cesare Pavese (trad. C. Nunes de Almeida)

domingo, 22 de março de 2009

Canto XVIII


















Meu amigo, foi um prazer nascer ao teu lado

passar-te muitas gripes e contradições.

Gostava que um dia me dissesses

que as tuas melhores doenças vieram de mim.

As febres de sábado à noite fortíssimas

como as de domingo de manhã.

Curámo-las na própria doença. Lembras-te?

Foi por isso que se plantaram laranjeiras

nos lençóis foi por isso que se beberam

chás no deserto.

Agora corre entre nós esta saúde de ferro.

Não nos prevenimos.

Já não nos salvam as palavras repetidas

na dose certa.

Mas foi um prazer nascer, meu amigo.

Compor a cama e pôr o sol do teu lado.


Foto Hugo Joel / Texto C. Nunes de Almeida

Canto XVII


















meu amigo, quais serão as hipóteses de voltarmos um com o outro a sonhar?
de que maneira inusual iremos contornar os dias pela sintaxe?
de que horas bravias sobreviveremos na violência dos cabelos atirados contra o mundo?
quais serão as cruzes a assinalar no jogo perdido da pele?
como resistirás a estes lábios entreabertos uma vez mais?
meu amigo, que terás para me oferecer em troca do vazio que restou?
pergunto-me com que vinho me encherão o copo no trilho do sangue
e como conseguirás assistir calado à minha entrega;
de que resistência falas quando a evasão te petrifica?
quantas florestas terão de ser abatidas para que os poemas nos dissolvam?
e bastará devorar árvores no esquecimento?
de que lado nascerá a luz nessa primeira manhã?
penso até quando te poderei chamar amigo.
_
Não é fácil ficar a sentir a memória a diluir-se na língua,
a laminar cores, dividi-las como um silêncio pelas pregas da túnica
onde se esconde um estranho batimento,
nessas cores que laboram como se agitassem
todo um terreno num grão só das costas.

É difícil voltar a erguer os olhos para outras mãos,
repetir, mais uma vez, o nome da morte em voz alta,
levar a maçã leprosa no fundo dos músculos e avançar
para que tudo de novo recue
nas sandálias de prata de um rapaz impronunciável,
para que se volte de novo a nudez contra o corpo
e a túnica se rasgue para encobrir o dito pelo não dito.

Ainda assim, podes colocar as mãos sobre mim,
por um instante que estanque o receio de subir
ao enclave do poema à beira da precipitação.

Só não tragas a promessa.

Foto: Hugo Joel / Textos de Ana Salomé (retirados do blog da autora http://cicio.blogspot.com/)

terça-feira, 10 de março de 2009

Canto XVI



















Um leopardo

azul me conduz

pelo dorso da noite.

_

O que quer que fosse – o liso

algodão dos lábios, a almofada

volúvel do sorriso.

Lâmpadas

ardendo sob

as devolutas pálpebras.

_

Morangos

eram

tuas pupilas

brancas.

_

Eu te baptizo: hidrângea

é teu nome – cesto

de água, idioma

e intriga do perfume.

_

Para nenúfar

sobrava-te água.














Foto Hugo Joel / Textos Albano Martins, in A Margem do Azul

domingo, 1 de março de 2009

Canto XV













En Occident, les femmes virtuoses ont fourmillé. Les femmes ont beaucoup aimé la musique. Les femmes qui ont beaucoup composé furent à tout le moins rares. Elles échappent à la mue. Pour retrouver la voix de leur enfance, il ne leur est demandé aucun effort, il leur suffit de parler, il leur suffit d’ouvrir la bouche. Elles dominent dans leur voix – d’un bout à l’autre de leur voix. Elles sont prééminence dans le temps e toute-puissance tonale, et hégémonie dans la durée, et empire le plus absolu dans l’empreinte sonore exercée sur les plus petits – sur les naissants. Les hommes sont voués, à partir de treize ou quatorze ans, à la perte de la compagnie du propre chant de leurs émotions, de l’émotion native, de l’affetto. La mue redouble la séparation avec le corps premier. Comme la présence de leur sexe entre leurs jambes, la voix grave, fautive, aggravée qui sort de leurs lèvres, la pomme d’Adam, à mi-partie du cou, scellent la perte de l’Éden. La mue est l’empreinte physique matérialisant la nostalgie, vouée à la nostalgie, mais la rend inoubliable, sans cesse se rappelle dans son expression même. Toute voix basse est une voix tombée. Pour peu que les hommes desserrent les dents, aussitôt – comme un nimbe sonore autour de leur corps – le son de leur voix dit : Ils ne recouvreront jamais la voix. Le temps est en eux. Ils ne rebrousseront jamais chemin. Ils composent avec la perte de la voix et ils composent avec le temps. Ce sont des compositeurs. La métamorphose du grave à l’aigu n’est pas possible. Du moins: n’est pas corporellement possible. Elle n’est qu’instrumentalement possible. Elle a nom la musique.

-

No Ocidente, as mulheres virtuosas abundaram. As mulheres amaram muito a música. Porém, as mulheres que compuseram muito foram bem mais raras. Escaparam à mudança. Para reencontrarem a voz da infância não se lhes pede nenhum esforço, basta-lhes falar, basta-lhes abrir a boca. Elas dominam na sua voz – de uma ponta à outra da voz. São preeminência no tempo e omnipotência tonal, e hegemonia na duração, e o império mais absoluto no sinal sonoro enviado aos mais pequenos – aos que nascem. Os homens estão destinados, a partir dos treze ou catorze anos, a perder a companhia do próprio canto das emoções, da emoção congénita, do affetto. A mudança duplica a separação com o corpo primeiro. Como a presença do sexo entre as suas pernas, a voz grave, faltosa, que sai dos seus lábios, a maçã de Adão, a meio do pescoço, selam a perda do Éden. A mudança de voz é a marca física materializando a nostalgia, votada à nostalgia, mas também o que a torna inesquecível, evocada continuamente na sua própria expressão. Toda a voz baixa é uma voz caída. Por mais que os homens soltem os dentes, logo – como um nimbo sonoro em torno dos seus corpos – o som da voz lhes diz: Nunca reencontrarão a voz. O tempo entrou neles. Nunca retomarão o caminho. Compõem com a perda da voz e compõem com o tempo. São compositores. A metamorfose do grave ao agudo não é possível. Pelo menos, corporalmente possível. Ela não é senão instrumentalmente possível. Tem por nome, música.















Foto Hugo Joel / Texto Pascal Quignard, in «La leçon de musique» (tradução de C. Nunes de Almeida)

Canto XIV



















Amor:

ferrugem

preciosa.

-

Amor:

metal

de quatro patas.


Foto Hugo Joel / Duas espécies de haikus de C. Nunes de Almeida

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Canto XIII















True Love enjoys
twenty-twenty vision,
but talks like a myopic.

O verdadeiro amor
possui todas as dioptrias,
mas fala como um míope.















Fotos Hugo Joel / Texto W. H. Auden (Tradução de C. Nunes de Almeida)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

CANTO XII












Perguntas-me:
"Porque vives na montanha azul?"
Meu coração sereno sorri e não responde.
Sobre as águas flui o brilho delicado
das flores de pessegueiro.
É esta outra terra, outro céu,
diferente do mundo dos homens,
lá em baixo.


Foto Hugo Joel / Texto Li Bai (tradução de António Graça de Abreu)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

CANTO XI



















Não posso
amar
mais claro

Foto Hugo Joel - Texto Jorge Sousa Braga

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Canto X



















Onde estivemos bailarino? Que chão rompemos
antes mesmo das nossas vestes

quando a pele tão encharcada se acomodou no estendal?
quando o meu osso desatou o teu osso mais nu?

Quem saberá agora dizer

de que água fomos bardos?
para que água?

Foto Hugo Joel - Texto C. Nunes de Almeida

Canto IX













Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ser uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

Foto Hugo Joel / Texto Alberto Caeiro

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Canto VIII













Sigo a via da Montanha Fria
A estrada da Montanha Fria não tem fim

Longas torrentes pedras acumuladas
Junto ao rio grandes ervas cobertas de gotinhas

O musgo escorregadio não retém a chuva
Mesmo sem vento os pinheiros sibilam

Quem consegue desligar-se do mundo
E sentar-se comigo no meio das nuvens brancas?

Foto Hugo Joel / Texto Han-Shan, séc. VII (versão poética de Ana Hatherly)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Canto VII

Cíclicos Galopes -

Homenagem Infinita a António Ramos Rosa













Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre

toda a pobreza chã ou obstáculo.

O vigor da palavra é evidência acesa

é saber-te do chão até à crina.

-

Quem te arranca a força de raiz

em que vale te cavam ou te calam,

de perfil ou de fronte és cavalo sempre,

cavalo de sempre.

-

O teu nome é uma parede que nos fala

sobre o teu silêncio. E é um nome

que não se excede e horizontal se lê,

a prumo.

*

O calor dos campos e da cor em ti, cavalo,

e em mim o muro quente e a força do teu nome.

Não espero mas aceito a tua marcha

como quem navega no campo dessas cores.

-

Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,

correm a liberdade dos campos sem a névoa,

relinchas do prazer de ser cavalo

(e não o sabes)

-

e aqui me tens numa linguagem árida

e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca

sempre com a paz do teu campo de cores

e a grande paz da força, da tua boca descoberta,

-

sempre a alertar-me em palavras que são brasas

ou cinza ainda cálida do papel, destas formas

do meu amor da liberdade e do vigor

da vontade inteira em mim, cavalo.

*

Escrever-te é preparar-me para um novo dia,

uma luta de abraços e de flores no mar.

Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,

a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo

-

até ao sabor quente do teu bafo animal.

A ferida, a raiva ferida, arrebatada

pelo teu corpo disparado, no silêncio

de um campo de ervas altas; o silêncio

dos nomes do campo concentrado

-

num muro branco.

O canto e o encanto das coisas nomeadas,

pedra alta, fria chuva, olhos acesos,

ervas e flores,

-

a geometria do teu andar desperta

e da dureza da terra faz o lugar voltar

ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.

*

Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,

no galope violeta, relâmpago terrestre,

animal de chuva, de vento e ar nocturno,

de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.

-

O tempo amadureceu a luz da tua pele.

Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.

Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.

És a manhã do tempo, a madrugada madura.

-

De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,

e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,

a tua pulsação que rasga as rugas da terra.

-

Creio no teu vigor, na paciência do vagar,

na violência nascente que destrói muro a muro

e em cada pisada deixa um sinal de amor.

*

Não creio noutra palavra que nasça doutro olhar.

Não creio noutro silêncio que não seja o da água

e deste odor de ferro numa ondulante marcha

até à fonte do ar junto às muralhas frescas.

-

Não creio noutra palavra que não seja a palavra

do teu outono fulvo, amadurecido.

A secura é cruel, mas tu sustentas o canto

de um espanto ainda maior e o depões no silêncio.

-

Os dois lados do rosto, dilacerados, loucos,

despertam os vales e as montanhas agrestes.

Cavalgas com a pausa e a fúria do alimento

-

que faz girar os astros, os girassóis, os ventos.

Mil caminhos se cruzam e tu feres a luz

com a negrura sábia do teu olhar maduro.

*

Por um pouco de sombra após a luz do muro,

por um pouco de luz quando a sombra se adensa,

duas faces se formam, alguém caminha cego,

alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.

-

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega?

Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,

apenas o perfil do cavalo sem a força.

-

É preciso dormir sobre escadas marinhas,

é preciso voltar à luz do muro, à sombra,

é preciso que a onda nasça de outra onda.

-

E cavalo e mulher na nudez mais perfeita

são as figuras vivas do sentir mais completo,

a perfeição do ser na frescura da forma.

*













*

Aqui seria a mancha mais clara

para um cavalo rosado ou cinza suave.

Aqui seria linear e ténue,

a vocação feliz de uma pequena nódoa.

-

As patas do cavalo vencem a inércia

de um princípio sem fim.

A fúria que eu invento é uma vontade

de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.

-

E eu com ele soçobro ou me levanto.

Aqui seria… e é destino e força

o peso do animal que amo sobre mim.

*

As formas do teu ser são várias

mas negam a inércia, arrancam-te

do chão. Tens o poder e a altura precisas

para a vasta geografia dos campos e das casas.

-

És vertical no peso, na verdade do nome

do princípio ao fim, firme de seres terra

e o cheiro que tens é de um livre universo:

a terra pode esperar, confia em teu galope.

-

Por que te quero único, por não ser e

para ser, quantas vezes te falho

sem a paciência

da tua impaciência nobre de cavalo.

Mas o teu galope liberta o meu alento

e o meu desejo corre sobre a planície branca,

a teu lado chispando a rubra fúria,

com a garganta ébria

de uma implacável frescura.

*

A sombra de uma onda arrasta ainda outra sombra.

À onda de uma sombra sucede-se outra onda.

Ao meu cavalo perdido hei-de abrir o caminho

de outro cavalo mais forte e a tudo simultâneo.

-

O verde azul sombrio de uma colina ou nuvem.

(A tempestade arrebatou-te as vestes). Nus

somos agora a verde água de um seio

e o pão branco da casa sobre as dunas.

-

Despidos ao sol somos animais fulvos, vermelhos,

dos elementos nutrindo-se à sombra do cavalo,

à claridade do ócio e nas traves dos barcos.

-

O dia. Os seios. A água. A sombra. A luz. A febre.

Rodopia uma roda do pulso até à árvore

num céu todo aberto à sede mais feliz.

*

O meu trabalho é este sobre a página branca

com a lâmpada branca desvendar as cores

do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,

dilatação de vasos, circulação de rios.

-

Ordenar lá do fundo o vigor que me impele

e me converte na força da página vivida

por um sangue de amar e de rasgar as folhas,

unir na casa única a multiplicidade.

-

Meu amor – agora sim – posso dizer amor

através de insectos e serpentes e fetos

sobre a baba e o ranho do nascimento puro.

-

Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.

Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo

arranco este galope, este vagar de estar.
























Fotos Hugo Joel / Textos António Ramos Rosa, in
«Ciclo do Cavalo»